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AAP-MG Ad Clinicum III

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AAP-MG Ad Clinicum III
No dia 23/05/13, a AAP-MG promoveu o terceiro Ad- Clinicum. Durante o encontro, no restaurante Sapore D’Italia, foi feita uma homenagem póstuma ao Dr. Sylvio Velloso.

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Ad Clinicum – Sylvio Velloso

 

Dia de apresentação nas tradicionais reuniões da Clínica Psiquiátrica do IPSEMG. Os assuntos eram escolhidos pelo residente e ele mesmo preparava a apresentação conforme seu entendimento. Naquela ocasião, no ano de 1993, não eram comuns os dispositivos de multimídia. Eu iria apresentar tema de suplemento especial do American Journal of Psychiatry sobre as mudanças ocorridas na psiquiatria americana, o nascimento dos manuais de classificação das doenças mentais – DSM – e como e por que esse movimento ocorreu nos EUA. Estava tenso e inseguro, até porque era um texto longo e em inglês, e não consegui fazer um resumo. Enfim, decidi apresentá-lo na íntegra. Lá estava eu no auditório cheio, frente aos componentes do corpo clínico dos preceptores, meus colegas residentes e demais profissionais da clínica psiquiátrica. Após quase duas horas de exposição em forma de leitura, em tradução livre de texto com inúmeros fundamentos do movimento político que modificou o sistema de assistência americano em psiquiatria, percebia-se que alguns estavam incomodados em escutar texto não produzido por mim, ainda que meu papel fosse apenas o de repassar o conteúdo para discussão. Ao término da apresentação, subitamente, alguém se levantou na plateia e começou a aplaudir. Era o Dr. Sylvio Velloso, que, em seguida, como era de sua característica, passou a fazer suas considerações sobre o assunto: “Quero parabenizar o Valdir pela brilhante apresentação. Fez-me lembrar de quando eu ainda era residente no Rio de Janeiro e o Prof. Leme Lopes foi proferir uma palestra, que todos esperavam que fosse breve, e ele colocou todo mundo preso numa cadeira por quase duas horas. Ao final foi aplaudido de pé por toda a plateia pela sua coragem em expor um texto polêmico para reflexão…” Por fim, concluiu: “Faça o que tem de ser feito e não espere nenhum reconhecimento. Seu papel não é buscar reconhecimento, mas fazer o melhor de si” (Dr. Sylvio Velloso).

É uma passagem simples, dentre tantas outras, que trago comigo durante a convivência com nosso querido colega e amigo que nos deixou e ocupa espaço na eternidade. Trago comigo estas marcas do bom mestre no reconhecimento do esforço do seu discípulo em enfrentar seu medo e a insegurança. Desde que me tornei psiquiatra e preceptor de residência médica, tento repassar alguns desses ensinamentos aos meus pacientes e residentes.

 

Valdir Ribeiro Campos

Psiquiatra

 

Ad Clinicum – Sylvio Velloso

 

Frequentei curso de psicopatologia com Sylvio Velloso durante minha época de residente, cujo conteúdo se consubstanciou em seu magnífico capítulo de semiologia do estado mental, ora disponibilizado pela AAP-MG (Velloso, S.M. Estado Mental. In: Lopez, M., Laurentys, J. Semiologia Médica. 4a ed. Rio de Janeiro: Revinter, 1999. p. 41-56.). Ainda hoje, é adotado em disciplinas da Medicina e da Enfermagem na UFMG, e muito apreciado pelos estudantes. Trata-se de conhecimento de origem centro-europeia, de embasamento filosófico racionalista. Felizmente, nós latino-americanos tivemos acesso a essa fonte de conhecimento, facilitado por reproduções ou adaptações ibéricas. Ideias e conceitos elaborados contrabalançam, aqui, o empirismo e pragmatismo anglo-saxões. No dizer de Jaspers, esta seria a psicopatologia mesma, autóctone, equidistante tanto da neurologia e de outras especialidades médicas como da psicologia e da filosofia. Ou ambas as coisas simultaneamente, mas nem uma, nem outra isoladamente. Em outras palavras, nem a psiquiatria biológica, nem somente a psicodinâmica: a psicopatologia está ali onde se apresentam os transtornos mentais. Tivessem os americanos mais acesso e apreço a essa psicopatologia, certamente o DSM não ensejaria tantas críticas.

Maurício Viotti Daker

Ex-presidente da AAP-MG

Professor Associado do Departamento de Saúde Mental da FM-UFMG

 

Ad Clinicum – Sylvio Velloso

 

Uma semiologia do estado mental inesquecível

 

Ler este capítulo escrito pelo grande e saudoso psiquiatra Sylvio Magalhães Velloso é como fazer uma viagem pelo tempo. Um verdadeiro flashback à psiquiatria dos anos 60 e 70 do século XX. Um tempo pré-DSM-III. Um tempo da fenomenologia clássica alemã de Jaspers. Bem antes da avançada e atual “medicina baseada em evidências”, porém mais humanista, com sua percepção do ser humano em sua integralidade, apesar de toda a dissecção promovida pelo reducionismo fenomenológico. Mais humanizada, portanto.

 

É como se estivéssemos lendo o Temas Psiquiátricos, de Cabaleiro-Goás, resumido, sem a verborragia riquíssima deste grande psiquiatra espanhol, um dos semi-deuses da psicopatologia que tanto estudei nos meus tempos de interno-acadêmico e residente no Hospital Galba Velloso da década de 1960. Sylvio Velloso conseguiu resumir, em dezesseis páginas o que Cabaleiro-Goás discorreu em 1221 páginas, isto mesmo, você não leu errado, mil duzentas e vinte e uma páginas.

 

O grande Karl Jaspers, em sua Psicopatologia Geral, leva 167 páginas, da Primeira Seção de seu Volume I, para descrever a avaliação psiquiátrica das principais funções psíquicas. E olha que o gênio alemão era um escritor sintético, não dado à prolixidade tão comum aos povos ibéricos.

 

O mesmo ocorre com o belíssimo texto de nosso ilustre prof. Augusto Luis Nobre de Melo, essência da nossa mais pura fenomenologia brasileira. Filho dileto da escola psiquiátrica do Rio de Janeiro, onde também pontificava o prof. José Leme Lopes, outro brilhante luminar de nossa especialidade, de onde Sylvio Velloso foi beber o néctar do conhecimento psicopatológico. Levou Nobre de Melo exatamente 222 páginas, a partir do Capítulo VIII, do volume I, de seu monumental Psiquiatria, publicado em 1979. Isto para ficar só em três livros dos que Sylvio Velloso utilizou em sua magnífica bibliografia fenomenológica.

 

Não é tarefa para qualquer pessoa uma proeza deste quilate: descrever, e descrever bem, magistralmente eu diria, uma avaliação tão fundamental para o diagnóstico psiquiátrico como o é a investigação das principais funções psíquicas. Pois bem, Sylvio Velloso o conseguiu. Merece todo o nosso elogio e até reverência pela capacidade de síntese. Digno herdeiro de seu avô Galba Moss Velloso e de seu pai Fernando Megre Velloso, dois luminares da psiquiatria mineira.

 

Confesso que não conhecia anteriormente o texto. Li-o numa sentada após o convite do prof. Maurício Viotti Daker para que o pudéssemos discutir na reunião da AAPMG do dia 23 de maio de 2013. Triste é ler algo produzido por um colega que se foi tão bruscamente, em idade que eu diria, sem nenhum temor, ainda jovem: no viço e na sabedoria de seus 67 anos. Uma injustiça!

 

Fico a imaginar o encontro agora dos três: o avô, o pai e o filho, onde quer que isso se dê. A alegria do reencontro de três sábios da psiquiatria, do mesmo sangue, da mesma linha, do mesmo ardor pela psiquiatria. Invejável uma família que nos legou três pedras preciosas do estudo da mente. Fico a imaginar a festa que estão fazendo, agora

que se reencontraram. Imagino suas conversas, suas citações, a avaliação dos livros que leram ou que gostariam de ter lido, já que foram escritos após sua partida. Sinto um pouco de inveja. Isso é para poucos.

 

Vá Sylvio, continue a destrinchar os meandros desta tão complicada mente humana. Você agora está muito bem assessorado pelo avô e pelo pai. Agora que você se incorporou como mais uma estrela neste firmamento que já tem tanto brilho. Um brilho emanado por tantos que para aí foram, antes de você, e que ajudam a nos dar mais luz.

 

Antônio Carlos de Oliveira Corrêa